Perguntamos aos líderes sociais das 400 maiores entidades
do Brasil, que transitam pelo site www.filantropia.org:
"Qual candidato à Presidência daria maior atenção ao terceiro
setor?". Mais de 1.600 líderes responderam à questão. Lula
recebeu 49% dos votos dos gestores sociais, indicando já em
maio de 2002 que o setor havia optado por ele. Como tudo em
internet, os resultados estavam disponíveis para todos os
políticos interessados no terceiro setor, mas pelo jeito ninguém
deu bola.
As 400 maiores
entidades do país auxiliam 13,4 milhões de pessoas diretamente
e muito mais do que isso indiretamente. É muito voto!
Sempre
acreditei que um dia o setor seria uma força política para
garantir a eleição de qualquer candidato, hoje e no futuro.
É um setor que tem garra, que tem acabativa (qualidade de
transformar planos em realidade), que busca o que precisa
com unhas e dentes, que não fica no discurso fácil da academia
e da política.
Se algum cientista político está tentando descobrir
onde errou, por que Lula obteve tantos mais votos que o próprio
PT, posso garantir que o terceiro setor teve enorme influência
nesta eleição.
A primeira vez
que Antoninho Marmo Trevisan, assessor de Lula e membro do
conselho do nosso www.filantropia.org, ouviu de mim que Lula
tinha chance de ganhar as eleições já no primeiro turno foi
exatamente seis meses atrás. Eu disse isto diretamente ao Lula, que ainda estava na dúvida se canditava ou não. Foi em Dezembro de 2001, nos escritório do Trevisan.
O terceiro setor daqui para diante
será um marco de referência para todo marqueteiro político.
O erro de José
Serra foi concentrar-se no econômico, talvez por ser economista.
Lula deveria ter dado graças a Deus por não ter um Ph.D.
Por
isso, ele observou a realidade brasileira, e não os livros
de economia, para saber que a questão seria o social, a opção
que tomou em sua campanha.
Um governo que acabou com a inflação
e imprimiu um crescimento do PIB de 9% ao ano não tem muito
mais a oferecer à população na área econômica.
Desde 1995 solicitamos
mensalmente aos líderes das 400 maiores entidades do país
que avaliem o governo na área social.
Em 1999, 78% consideraram
o governo Fernando Henrique Cardoso ruim ou péssimo. Em setembro
de 2002, somente 17% o viam como excelente e bom. A sorte
já estava selada.
Fernando Henrique ignorou o terceiro setor,
deixou o social mais nas mãos de dona Ruth Cardoso, sem verbas
nem apoio.
Ela teve de se esforçar em tempo integral para
angariar fundos para a comunidade, pedindo verbas a empresários,
num trabalho árduo de fund raising (captação de recursos junto
a empresas e pessoas físicas que resulta em doações a entidades
assistenciais).
As entidades
se sentiam ameaçadas quando dona Ruth visitava uma cidade.
No dia seguinte, era quase certo que algum empresário local
cortaria a verba sistemática de ajuda de vários anos. "Dona
Mariazinha, lamento informar que neste ano não vamos poder
colaborar. Nosso apoio foi para ajudar outra causa que eu
não tive como negar."
E não poderia mesmo. Afinal, era a mulher
do presidente. Até eu recebi um telefonema desses, do mau amigo Rolim Amaro da Tam, e o serviço
Doe Bens para uma Entidade, do www.filantropia.org,
continua agora sem patrocinador.
As 400 maiores
entidades se sentem machucadas, abandonadas e usadas pelo
governo e pelos políticos, que somente as procuram na semana
anterior às eleições. Posso garantir que a força política
do terceiro setor veio para ficar.
Nenhum candidato no futuro
ousará negligenciar o setor, que será muito influente nas
eleições de 2010 e 2014 e 2018.
Se o próximo
governo não conseguir corresponder às expectativas de melhoria
no social, arrisco fazer uma estranha previsão. Seguramente
veremos surgir um novo partido político, o Partido do Terceiro
Setor (P3S), do qual farei questão de ser um dos primeiros
filiados.
Um partido que
será para milhares de entidades sociais, e para os realmente
necessitados e excluídos, o que o PT foi com tanto sucesso
para os sindicatos e trabalhadores brasileiros: uma voz ativa.
Artigo Publicado
na Revista Veja, Editora Abril, edição 1775, ano 35, nº 43, 30 de outubro
de 2002, página 24.
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